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E tu, quem és?




Geração
É impressionante assistir a esse palco de sucessões que se tornou o mundo em que, para esse mesmo mundo, o espetáculo ocorre às escuras, de cortinas cerradas e em silêncio.

Houve tempo de liberdade e interesse, houve quem descrevesse o ontem como tempo de aprendizado, o hoje como exercício do conhecimento e o amanhã como conjunto de todo o aprendizado, exercício e compreensão; para uma geração engrandecida e conhecedora de si e da qual o funcionamento, como engrenagem polida, engraxada e constante, garantisse ao mundo um espetáculo de vozes e coros e música, de saúde, de vida e de coragem. Houve tempos assim, pessoas em pequeno número, mas em grande influência; por sabedoras de quais conseqüências seus atos gerariam mesclados aos outros, saberiam ainda mais por conseguirem investir em seus próprios atos o melhor de si, o desempenho, a inteligência, a calma e a sabedoria de observar, criar, executar e transferir à geração à frente.

Os frutos de nossa própria incúria, de nosso pouco caso, investimento individual da preguiça, da maledicência... Quando nos negamos a ouvir a própria sabedoria que há em nós, quando duvidamos de que o futuro será em nós o que dele pintarmos, como em uma paisagem... Quando subjugamos a mente aos golpes diários da ignorância, do descaso, quando somos humanos demais para sermos seres... Quando a vida é mero movimento de ir e vir, sem sentir... Quando não há mais o que tocar à alma... A ciranda dessa vida de cada um, cada cavalinho quebrado no carrossel, cada peça quebrada do tabuleiro de xadrez, cada pedra tirada da estrada, cada gota d'água que se esvai do vaso, deixando a flor desnuda e exposta à secura de nossos dias...

Seja como for, representação viva ou figurativa, a geração que atravessa esses dias e esses caminhos de nosso mundo atual conflita dia e noite com essa forma de estar que não é a de ser, uma falta de segurança, tranqüilidade e conhecimento que não perdoa... Em um futuro único, coletivo, o quadro é terminal. Não são palavras apocalípticas, nem creio em fim do mundo ou bolas de fogo. Creio na exterminação da pessoa pela própria pessoa, dos valores e das qualidades que fazem das pequenas coisas, dos atos diários, o mecanismo de vida que o ser humano precisa manter para ser vivo e ser humano.

Não se engane, não parece que as palavras somam-se sem nexo e que ao final do contexto tudo se resume em viver ainda mais cada dia mais como se está vivendo. Não. Apocalipse é um termo apenas para o fim total de uma existência que ainda estava viva. Nós passamos desse ponto e na individualidade de cada um, não haverá "armagedom". Porque a gota de água última no vaso está preste a escoar de nossos seres, para um deserto de sentimentos e de vida. Interior. O mundo vai continuar existindo, mas em seus moldes, padrões de mortos vivos que não comem, não dormem, não se banham e nem se amam. Tudo para a geração que ainda será a nossa.
Reflexão
Ser humano

O indivíduo.


"Quem é Deus? Perguntei-o à terra e disse-me: 'Eu não sou?'.

E tudo o que nela existe respondeu-me o mesmo.

Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me:

'Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós'.

Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com os seus habitantes, respondeu-me:

'Anaxímenes está enganado, eu não sou o teu Deus'.

Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas e disseram-me:

'Nós também não somos o Deus que procuras'.

Disse a todos os seres que me rodeiam as portas da carne:

'Já que não sois meu Deus, falai-me de meu Deus, dizei-me ao menos alguma coisa d'Ele'. E exclamaram com alarido: 'Foi Ele quem nos criou'.

A minha pergunta consistia em contemplá-las; a sua resposta era a sua beleza.

Dirigi-me, então, a mim mesmo, e perguntei-me: 'E tu quem és?' 'Um homem', respondi."

Conf. X

Santo Agostinho

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E tu, quem és?
Essa questão, feita de modo objetivo, remeteria à posição a que todos se encontram no mundo pensante em que vive: Somos todos Seres Humanos. Homens, mulheres e crianças. Raça humana.

Essa mesma pergunta, feita de maneira a conseguir uma resposta subjetiva, demoraria um tanto mais para ser efetivada.

Quem é você?

O indivíduo se vê em meio a uma sociedade de centenas, milhares de outros indivíduos e se pergunta quem é; e isso, a ele ninguém pode responder.
Mais que seres humanos, cada indivíduo é uma parcela de um todo, consigo mesmo e com os outros, no que é o mundo no qual está inserido.

Hoje, mais e mais pessoas procuram a individualidade, sem saber dela seu preceito mais importante: Conhecer-se.

Ao nascer, ao crescer, o indivíduo tem por base a cultura que permeia o âmbito familiar. Não digo familiar em sentido do lar em si, da família, porque nem todos possuem o mesmo "desenho-família": papai, mamãe, casa e o restante da fotografia. Digo familiar no sentido de conhecido, peculiar; seu âmbito, seu ambiente no qual desenvolveu-se a sua pessoa.

Essa cultura adquirida, seja qual for, leva o ser infantil a um ser adulto e que representará de forma ativa uma parcela a mais na sociedade já estabelecida.

Esse novo elemento assimila o âmbito social e cultural que a sociedade lhe indica por presciência, e tudo de que o indivíduo foi formado anteriormente se modifica e, com o tempo, perde-se; se o indivíduo não houver feito aquela simples questão: "Quem sou eu?", e tiver, em si, encontrado a resposta verdadeira e para a vida.





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