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Coração e Ímpeto
"CAP. XC
___ Eu não sei o que vim fazer aqui... – Quisty andava de um lado para o outro, nervoso após dar uma olhada na quantidade de pessoas que chegavam para assistir a última palestra de Richard, agora também parte dele, na universidade.
___ Você viu o que há lá fora? Parece que veio todo mundo até do meio-oeste... – brincou ele nervosamente.
___ Está tudo bem, Alec, não tem com o que se preocupar. – Richard lhe sorriu, entregando os papéis já digitados os quais ele leria parcialmente – A primeira vez é sempre a mais difícil – ele riu – mas também a mais inesquecível. Você pensa que não dá conta de se pronunciar diante de tanta gente, mas quando vê, o todo vira um só de repente, é como se falasse para uma pessoa só em sua sala de casa.
___ É, não tinha pensado assim. – Quisty olhou novamente as pessoas se sentando na platéia do auditório, já quase repleto - A diferença entre uma pessoa ou uma centena delas...
___ É a quantidade de tomates que eles podem acertar na sua cara, que pode ser bem maior!... – a voz de Josh chegou antes de sua presença por detrás do palco.
___ Cai fora daqui, cara!... – Quisty lhe bateu na cabeça com os papeis enrolados e sorriu – Vai ver ele chegou aqui com uma sacola cheia de tomates só para distribuir entre a platéia. Richard também riu.
___ Vai ficar para assistir a palestra, Josh? Ou veio só nos desejar “boa sorte”?
___ Sarah me arrastou para vir. Eu não sei o que ela vê nisso, mas disse que pode engrandecer minha mente infantil... Não sei o que ela quis dizer com isso... Em todo caso, antes vocês do que eu, meus camaradas. Fui!... Vou assistir lá da porta de saída, boa sorte. Ambos riram quando Josh saiu e Quisty olhou preocupado, para a platéia novamente.
___ E a Dináh, ela ainda não chegou?
___ Não dá para saber, tem muita gente.
O reitor Williams apareceu à porta detrás do palco: ___ Já vamos começar, rapazes. Tudo pronto?
Richard olhou para Quisty, e ele respirou fundo, assentindo com a cabeça em seguida.
___ Vamos nessa, Richard.
O primeiro a pisar no palco foi Richard, que apresentou Quisty como colaborador da pesquisa e do projeto. Assim Richard iniciou a palestra, como já em outras vezes e, no final, pediu a Quisty que viesse ao microfone para dar suas considerações idéias.
Ele olhou para a multidão, sorriu e começou a dizer timidamente o que havia preparado para a palestra. Todos ouviam em silêncio e Quisty pôde avistar no meio da terceira fila sua querida Dináh. Ela lhe sorria e, com profunda atenção e orgulho o assistia tão tímido no enorme palco a dizer aquilo que ambos, ela e ele tanto haviam conhecido em suas vidas como compreensão da unicidade, do respeito, da integração, do encontro com nosso universo através do próprio ser, do amor universal, do cuidado e seriedade e responsabilidade com nossos atos... da vida...
___ 'A vida, que não termina em cada um de nós assim que vimos a esse mundo. A vida, que não começa em cada um assim que nascemos. Ela não começa e não termina nunca conquanto somos como o minúsculo grão de poeira que ainda pode trazer consigo vida suficiente para desencadear todo o processo que hoje chamamos universo.
Ele é essa partícula que para nós parece tão imensa, a qual aprendemos a manipular e por vezes desrespeitar por a julgarmos parte não integrante de nossos seres, por sempre colocarmos o mundo no estrangeiro de nossas crenças, por dele enxergarmos apenas o breve, o perto, o passageiro, o convencional, o que nos servirá ao propósito mais rapidamente, abolindo quaisquer conseqüências, quaisquer garantias de um futuro são, conquanto tivemos nós a certeza de serem dias futuros algo fora de especulação, algo que será herdado por outras mentes, outros seres que não nós. Desse modo cortamos os cordões da vida, a raiz de nossa integridade e as razões para que sejamos dignos desse nome “seres vivos”. Hoje, aqui, houve tanta dúvida, tanta incerteza, de minha parte, que vim à público trazer idéias que somente em dias de muita certeza consegui trazer ao papel. Certeza de que somos nós, todos e tudo que há no mundo, uma única coisa: Vida. E nessa unicidade não podemos, não devemos enxergar a nós mesmos como estrangeiros, como desconhecidos porque em cada um de nós depende o outro que não sobreviveria sem essa certeza de que amanhã o sol voltará, e para todos. Então: conhecer, preservar, construir e evoluir. E continuar como no início, apenas como no início a essência de tudo à nossa volta. Como um ciclo que não para, apenas uma sentença deve continuar eterna enquanto tudo o mais muda. A vida.'
Quisty terminou o que dizia e não houve tempo de silêncio entre seu discurso e os aplausos que se sucederam por toda a assistência, em peso.
Era incrível estar ali, parado, ouvindo todos aqueles jovens e também muito adultos de mais idade lhe aplaudindo as palavras que lhe havia trazido à sua própria vida como uma estranha brincadeira, um jogo de sensações e verdades que provadas mostraram-se receptíveis e concisas naquele âmbito e momento a inúmeras outras pessoas.
Quisty sorriu, dispensando último olhar à Dinah enquanto agradecia e se retirava do palco.
___ Meus parabéns mais sinceros, Alec. – Richard o recebeu atrás do palco – Quero lhe agradecer muito por ter vindo e exposto suas idéias de forma tão bela e tão simples.
___ Eu lhe agradeço, Richard – Quisty abraçou o amigo com a emoção ainda forte em seu espírito – Hoje, quem aprendeu algo muito valioso fui eu, meu amigo. Aprendi que o tempo vem com suas respostas antes das perguntas serem feitas e que não se pode estar pela metade quando questionados pela vida; ela não admite se estar mais ou menos pronto, mais ou menos ciente ou conhecer apenas a superfície. Quando a vida apresenta a pergunta é preferível a ignorância total da resposta à uma resposta imperfeita e falha. E essa dúvida agora não é mais ignorada porque eu pude compreender o que o tempo leva anos para dizer."
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